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Mulheres em cargos de liderança ainda enfrentam o rótulo de “emocionais”

by Redação
6 de março de 2026
in Destaques
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Mulheres em cargos de liderança ainda enfrentam o rótulo de “emocionais”


Mulheres em cargos de liderança ainda enfrentam interpretações diferentes sobre autoridade e emoção Mulheres em cargos de liderança ainda enfrentam interpretações diferentes sobre autoridade e emoção Imagem: fizkes | Shutterstock

O Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, costuma ser marcado por homenagens simbólicas, mas a data também abre espaço para reflexões mais profundas sobre liderança, poder e os desafios ainda enfrentados por mulheres em cargos de decisão.

Embora a presença feminina em posições de liderança tenha crescido nas últimas décadas, especialistas apontam que ainda existem diferenças na forma como homens e mulheres são percebidos quando exercem autoridade.

Para a juíza federal Alessandra Belfort, pesquisadora das relações entre emoção e tomada de decisão, parte dessa percepção está ligada a estereótipos históricos que continuam influenciando a forma como a liderança feminina é interpretada. “Quando falamos sobre mulheres em posições de poder, não estamos discutindo apenas o acesso ao cargo. Também estamos falando sobre como essa autoridade é percebida, questionada e, muitas vezes, testada de forma diferente”, afirma.

O mito de que emoção compromete decisões

A juíza, que também é mestranda em Psicologia Forense pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), pesquisa como as emoções influenciam processos decisórios, especialmente no contexto judicial. Segundo ela, um dos estigmas mais persistentes é a ideia de que mulheres seriam “emocionais demais” para funções que exigem decisões complexas.

“Existe um mito muito difundido de que emoção e racionalidade são opostos. A ciência mostra justamente o contrário. As emoções fazem parte do processo de decisão e ajudam a organizar prioridades, avaliar riscos e interpretar contextos”, explica.

Para a magistrada, esse debate vai além da discussão sobre gênero. “O debate sobre emoção não é apenas uma questão de gênero. É uma questão sobre como as decisões humanas são tomadas”, pontua.

A mesma postura firme pode ser vista como liderança nos homens e como excesso de emoção quando parte de uma mulher Imagem: Ground Picture | Shutterstock

O peso do estereótipo da “mulher emocional”

Na prática, segundo Alessandra Belfort, o problema não está na emoção em si, mas na forma como ela é interpretada socialmente. “Quando um homem demonstra intensidade ou firmeza, isso costuma ser percebido como liderança ou convicção. Quando uma mulher demonstra a mesma intensidade, muitas vezes surge a leitura de que ela está sendo excessivamente emocional”, observa.

Esse tipo de interpretação cria uma pressão adicional sobre mulheres em posições de liderança, que acabam tendo que equilibrar constantemente a forma como expressam autoridade.

“Muitas profissionais relatam a necessidade de administrar a própria imagem o tempo todo. Existe um cuidado para não parecer dura demais, mas também não parecer sensível demais. Esse equilíbrio raramente é cobrado com a mesma intensidade dos homens”, diz.

Autoridade não significa ausência de emoção

De acordo com Alessandra Belfort, a discussão sobre emoção e liderança precisa ser aprofundada, especialmente em ambientes que envolvem responsabilidade e tomada de decisão. “Autoridade não significa ausência de emoção. Autoridade está relacionada à capacidade de decidir, assumir responsabilidade e conduzir processos complexos. A emoção, quando compreendida, pode inclusive ampliar a qualidade das decisões”, afirma.

Esse tema, segundo ela, tem ganhado cada vez mais espaço nas pesquisas em psicologia e comportamento. “No campo da psicologia forense, sabemos que decisões humanas, inclusive no Judiciário, não são processos totalmente mecânicos. Emoções, valores e experiências fazem parte da forma como interpretamos situações. O importante é desenvolver consciência sobre esses fatores”, explica.

Diversidade de perspectivas fortalece instituições

Para a magistrada, ampliar a presença feminina em espaços de liderança também contribui para decisões mais completas e instituições mais conectadas com a realidade social. “Quando diferentes experiências participam da tomada de decisão, ampliamos as perspectivas e enriquecemos os processos institucionais. Liderança não é uniformidade, é capacidade de integrar diferentes visões”, afirma.

Segundo Alessandra Belfort, o Dia Internacional da Mulher pode ser um momento importante para ampliar esse debate e olhar para mudanças estruturais. “Não se trata apenas de reconhecimento simbólico. É uma reflexão sobre como construímos ambientes de decisão mais maduros, mais conscientes e mais preparados para lidar com a diversidade de experiências humanas”, conclui.

Por Daiane Maio





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