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Quando o ‘sabor’ vira sentença

by Redação
1 de abril de 2026
in Destaques
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Quando o ‘sabor’ vira sentença


Unsplash/Engin Akyurt sabor
Estudos da American Psychological Association indicam que a repetição torna uma ideia familiar

Na última semana, duas cenas atravessaram o debate público com mais força do que aparentam. Na Câmara Municipal de São Paulo, o vereador Adrilles Jorge usou uma peruca para sustentar uma ideia simples: mudar a aparência não faz ninguém entender o que uma mulher viveu. Dias antes, na Assembleia Legislativa, a deputada Fabiana Bolsonaro escureceu a pele e afirmou que se identificar como uma mulher negra não significa ter vivido o racismo.

As duas falas apontam para um limite real claro. Experiência não se improvisa, dor não se ensaia, vivência não se declara. De fora, a lógica parece óbvia, principalmente quando não é com a gente. Mas existe uma exceção silenciosa que quase ninguém percebe. Ela aparece quando confundimos “sabor” com ser.

Há barras com “sabor” chocolate que nunca viram cacau. Parece, lembra, engana, mas não é. Com a experiência humana acontece o mesmo. Muitos discursos têm sabor de verdade, sem jamais terem tocado na vivência real. E o mais curioso: compramos essa embalagem com a mesma facilidade que aceitamos uma etiqueta do figurino.

A ciência explica essa passividade através do illusory truth effect. Estudos da American Psychological Association indicam que a repetição torna uma ideia familiar e, por isso, mais convincente, ainda que seja falsa. O que se repete vira conhecido, e o conhecido vira casa, mesmo quando essa residência é apertada, escura e sem janela. É assim que o figurino vira fato e a mentira se transforma em convicção.

Uma paciente ouvia quando era criança de sua mãe: “você é um lixo”. Outra, de um companheiro: “você é uma péssima mãe”. Também tive a paciente que ouvia do chefe: “você faz tudo errado”, enquanto pedia ajuda para apertar o botão enviar de um e-mail, mesmo ela sendo a gerente de marketing. E essa contradição do cargo não impediu a frase de entrar. Pelo contrário, a agressão se conecta com mais força.

Sinto dizer, mas o que aconteceu não ficou no passado. Volta na forma como hesita antes de tentar, na maneira como sempre acredita que cometeu algum erro ou que precisa se esforçar um pouco mais. E, o pior, quando tem uma conquista, vê o sucesso como detalhe. Imagine um dia de “céu de Brigadeiro”: azul, sem nuvens, lindo, mas comum o suficiente para não ser lembrado. O acerto vira obrigação, o erro torna-se prova irrefutável: você é um fracasso.

Freud já observava um movimento que, quando você reconhece, é impossível “desver”: aquilo que não é elaborado, retorna. Reaparece na forma de comportamentos cíclicos e escolhas próprias que te ferem. Você olha sua vida e pensa: é impressionante, parece que eu só me aproximo de pessoas que me fazem sentir a mesma coisa “um lixo”.

Quase como algo cármico. Mas não há nada espiritual nisso. É psicanalítico: “Repetir, recordar e elaborar”. Continuamos repetindo enquanto não elaboramos esse caminho. Apenas reconhecendo a estrutura encontramos saídas diferentes no mesmo labirinto. Como aponta o filósofo Byung-Chul Han, vivemos em uma sociedade que nos empurra para uma autoexploração exaustiva, onde o cansaço não é apenas físico, mas um sintoma dessa repetição vazia que aceitamos como identidade.

Torna-se gatilho deixar de preparar o lanche do filho para a mãe que ouviu que seria incapaz, assim como o erro apontado pelo chefe aciona a memória de quem cresceu escutando que não tinha valor. Nesse momento, a repetição entra em cena. Não das palavras em si, mas do sofrimento que elas acionam. A sensação de insuficiência encontra o caminho comportamental mais conhecido e por isso, automático. Você volta para o lugar onde já se sentiu pequena, frágil e insuficiente. “Esquece” de todas as conquistas e assume àquele momento anterior.

É aí que a “mágica” acontece: o comportamento se organiza rápido demais para parecer escolha. Você se diminui, evita se expor, se sobrecarrega e, com facilidade, acredita que não é boa o suficiente. O que acontece agora parece resposta ao presente, mas está muito mais conectado ao passado do que você gostaria de admitir. O gatilho é atual. A estrutura é antiga.

Existe uma ironia difícil de engolir. Exigimos experiência real para reconhecer a dor do outro, mas não exigimos prova alguma para acreditar na nossa insuficiência. Basta ter ouvido uma vez, no momento mais vulnerável, de uma pessoa importante emocionalmente, e pronto. A frase vira documento. A falha vira prova. A crítica vira sentença, assinada e autenticada por você mesma.

Não fica só o que disseram sobre você. Fica a lógica que veio junto. Você errou uma vez, então nunca foi boa. Falhou em um ponto, então é uma fraude inteira. A conta é sempre desproporcional. Um tropeço vira identidade. Na sua régua interna, quem é bom não falha. Quem é forte não hesita. Quem merece estar no holofote não vacila. Certo? É assim que o ciclo se mantém. Você não repete apenas a fala, repete o raciocínio que ela ensinou. Passa a viver como se precisasse merecer o espaço que já ocupa. Cada vitória vira obrigação. Cada falha vira revelação do seu “verdadeiro eu”.

No fim, essa coluna não é sobre perucas nem sobre cor de pele. É sobre repetição. Repetição de frases, olhares, humilhações e situações que te colocam no mesmo lugar: pequena, vigiada, em alerta. Por isso não basta entender racionalmente. Há experiências que viram registros e, quando acionadas, o comportamento automático assume o controle. Para quebrar o ciclo? Precisa perceber que a repetição é um bloqueio na avenida principal e você deve encontrar uma rota alternativa.

Quais escolhas ainda carregam a assinatura de uma voz antiga? Quantas respostas comportamentais nasceram de algo que nunca foi questionado? Quantas vezes você ainda vai chamar de verdade uma crueldade que apenas se repetiu o suficiente para parecer sua?

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.





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