Postura brasileira na crise EUA x Irã ‘expõe fragilidades da política externa’, afirma cientista polítco

nota divulgada pelo governo brasileiro após o ataque norte-americano que vitimou o general iraniano Soleimani não repercutiu bem no Irã, que convocou a representante da embaixada brasileira em Teerã, Maria Cristina Lopes, para dar explicações.

Segundo o cientista político Hussein Kalout, o posicionamento brasileiro diante da crise entre os dois países é equivocado. “Apoiando as ações norte-americanas, o Brasil endossa ações militares não legalizadas pelas Nações Unidas, e reconhece a extraterritorialidade dessas ações”, comenta.

Pela primeira vez após a Segunda Guerra Mundial, nenhum país aliado dos Estados Unidos, com exceção de Israel, se posicionou abertamente favorável a ação militar. “Os Estados Unidos perderam a cobertura diplomática dos países aliados. Reino Unido, Alemanha, França, Canadá, e até as monarquias do Golfo estão contidas. De uma forma mais ampla, Brasil não tem importância estratégica, e a forma pouco sofisticada como procura interferir expõe as fragilidades do seu processo de formulação da política externa, o que a um médio ou longo prazo, certamente pode interferir nos nossos interesses”, completa.

No caso do agravamento da crise entre os dois países, as consequências econômicas poderão ser sentidas em breve pelos brasileiros, avalia Kalou. “O cenário de instabilidade tende a elevar o preço barril de petróleo, tornando a energia mais cara. Uma energia mais cara impacta no sistema produtivo, e isso vai parar no bolso do cidadão brasileiro.”

Além do petróleo, outras áreas da economia podem sentir o impacto dos confrontos, já que o Irã é o quinto país que mais importa produtos agrícolas do Brasil. “Se a região avança para uma instabilidade e há um distanciamento comercial, perdemos nosso quinto maior comprador. A balança comercial é favorável de forma avassaladora ao Brasil.”

Inicialmente, o posicionamento brasileiro em favor dos Estados Unidos não deve prejudicar as relações diplomáticas, mas segundo Kalout, é preciso ter cautela. “O posicionamento brasileiro foi interpretado como uma agressão e um desrespeito, mas os iranianos estão habituados a lidar com diplomacias ambivalentes, sendo atacados e tendo relações diplomáticas com os mesmos países. Porém, se o Brasil optar por uma ofensiva diplomática, aí sim o grau das relações comerciais podem ser reduzidos.”

Sobre a declaração do presidente Bolsonaro, que afirmou que o Brasil irá manter o comércio com o Irã, Kalout lembra que a decisão está nas mãos dos iranianos. “Quem decide se tem comércio ou não é quem compra, não quem vende. E hoje eles compram infinitamente mais da gente do que a gente deles, cerca de 90 a 10%. Eles que têm a chave de decidir o quilate da relação comercial com o Brasil.”